Transexualidade e Psiquiatria

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Transexualidade e Psiquiatria

A discussão sobre transexualidade é relevante a partir da polêmica recente promovida pela personagem Ivana, interpretada pela atriz Carol Duarte, na novela “A Força do Querer” da Rede Globo.

Inicialmente, é importante o esclarecimento a respeito de alguns conceitos relacionados ao tema:

Sexo é um termo biologicamente definido. Trata-se das características físicas do indivíduo, como o cromossomos, genitais e tipo de células reprodutivas.

Identidade de gênero refere-se ao gênero com o qual uma pessoa se identifica, e como ele deseja se apresentar à sociedade. Pode ou não concordar com o sexo de nascimento da pessoa.

Cisgênero é um conceito que abrange as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi determinado de acordo com o sexo biológico.

Transgênero pode ser considerado um termo mais geral, que engloba não somente o transexualismo, mas também o travestismo e outros. Assim, trangênero pode ser transexual, pode ser uma pessoa que não se sente completamente nem do gênero feminino, nem do gênero masculino, pode ser uma pessoa que às vezes se sente do sexo feminino e às vezes do masculino, pode ser uma pessoa que gosta de se vestir com roupas do sexo oposto, mas está contente com o seu sexo biológico, pode ser um travesti, etc.

Travestismo é muitas vezes confundido com transexualismo. Contudo, travestismo e transexualismo são completamente diferentes. Travesti é uma pessoa que se veste com as roupas e assessórios do sexo oposto somente em parte do dia ou para apresentar shows, porque sente prazer emocional ou sexual fazendo isto. Embora travestis gostem da fantasia de se comportar como o sexo oposto, eles não se consideram do gênero oposto. Por exemplo, um homem que se traveste não se considera do gênero feminino. Ele está contente sendo um homem e tendo corpo masculino.

Homossexualismo é relativo a orientação sexual da pessoa, ou seja, se a pessoa se atrai por pessoas do mesmo gênero ou do gênero oposto. Os homossexuais sentem atração por pessoas do mesmo gênero (mulheres que sentem atração por mulheres e homens que sentem atração por homens), mas estão felizes com o sexo refletido pelo seu corpo.

Hermafroditismo é a condição em que uma pessoa nasce com órgãos sexuais de ambos os sexos.

Transexualismo é a condição em que uma pessoa se identifica como sendo do gênero oposto ao sexo refletido pelo corpo (sexo psicológico oposto ao sexo biológico). Um transexual female-to-male (FTM, homem transexual) é uma pessoa que sente que o seu gênero é masculino, embora tenha nascido com corpo feminino e um transexual male-to-female (MTF, mulher transexual) é uma pessoa que sente que o seu gênero é feminino, embora tenha nascido com corpo masculino. O termo transexualismo não está relacionado à orientação sexual da pessoa. Assim, transexuais podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais.

Estima-se que uma em cada cem pessoas sejam transgêneras, isto é, não se identificam com o gênero associado ao seu sexo de nascimento e alguns desses indivíduos optam por passar por um processo de redesignação sexual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) costumava tratar a condição como um transtorno de identidade de gênero, uma condição necessária para a recomendação da cirurgia de mudança de sexo.

Existe uma grande discussão atualmente com relação a considerar o transexualismo como uma doença ou não. Por enquanto, a Classificação Internacional de Doenças, versão 10 (CID-10), ainda considera esse diagnóstico – Transtorno de Identidade de Gênero (TIG), que requer 3 critérios principais:

  • Desejo de viver e ser aceito como membro do sexo oposto, normalmente acompanhado pelo desejo de fazer com que o corpo seja o mais congruente possível com o sexo preferido, através de cirurgia e tratamento hormonal.
  • Este desejo esteve presente persistentemente por pelo menos 2 anos.
  • O transtorno não é sintoma de nenhum transtorno mental ou abnormalidade cromossômica.

No entanto, tudo indica que a próxima edição da CID, assim como fez a classificação da Associação Psiquiátrica Americana, na sua Quinta Edição, retire a transexualidade da lista de doenças catalogadas. Na nova CID uma seção será dedicada exclusivamente a condições que não são mais consideradas distúrbios, mas exigem algum tipo de intervenção médica. Com essa ressalva, a OMS espera manter a garantia de que indivíduos transgêneros continuem recebendo tratamento de redes públicas e particulares.

A condição emocional causada pela insatisfação do indivíduo transgênero é hoje tratada como “disforia de gênero”, uma condição que exige intervenção especializada para adaptar o corpo do paciente à imagem que ele tem dele mesmo.

“É crítico ressaltar que os transgêneros passam por aflição emocional resultada não só da pressão externa, da discriminação, mas também da insatisfação causada por estar em um corpo que não corresponde à sua identificação de gênero”, ressalta Rafael Mazin, conselheiro sênior do Escritório da OMS nas Américas.

As causas do transexualismo ainda não são totalmente compreendidas. Provavelmente, como é de costume no desenvolvimento do comportamento humano, há um conjunto de fatores envolvidos. De qualquer forma, esse sentimento de inadequação subjetiva gera grande sofrimento e não pode ser mudado apenas pela vontade do indivíduo. Portanto, uma pessoa transexual não tem como deixar de ser transexual através de tratamentos psicológicos. O que existe é a possibilidade de os transexuais passarem por tratamentos hormonais e cirurgias que os ajudem a se sentir melhor e a viver melhor de acordo com o seu gênero.

Em 2008, as diretrizes nacionais para a realização do Processo Transexualizador foram regulamentadas pelo Ministério da Saúde por meio da Portaria nº 457/2008. A psicoterapia consta no procedimento do processo transexualizador como parte importante do acompanhamento do(a) usuário(a) na elaboração de sua condição de sofrimento pessoal e social. Da mesma forma, a avaliação psiquiátrica e psicológica consta como um dos requisitos para que as pessoas transexuais possam retificar os dados nos documentos, modificando o nome de registro e adequando-o ao gênero com o qual se identifica.

O processo transexualizador deve ser acompanhado por endocrinologistas, psicólogos e psiquiatras. Depois de receber o diagnóstico que aponta a necessidade do tratamento, recomenda-se que o homem ou a mulher passe por ao menos dois anos de terapia psicológica e hormonal antes de se submeter à cirurgia de mudança de sexo.

“Temos de ter certeza do diagnóstico da transexualidade. Não podemos indicar uma cirurgia radical desse tipo baseando o laudo em um conhecimento precoce”, alerta Amanda Athayde, diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

Durante o tratamento hormonal, o indivíduo começa a desenvolver características físicas do sexo oposto. Os homens desenvolvem mamas e sofrem uma redistribuição da gordura corporal, enquanto as mulheres notam aumento dos pelos corporais e da musculatura.

A título de ilustração, será descrito um caso que foi atendido em um serviço de referência na cidade de Barcelona, na Espanha:

Há alguns anos foi atendido um paciente de 51 anos que há três anos recebeu o diagnóstico de TIG homem-mulher. Desde pequeno gostava de brincadeiras femininas e, inclusive, sua mãe o tratava como menina. Devido à forte repressão do pai, acabou restringindo suas tendências femininas. Aos 14 anos, começou a namorar uma menina. Logo no início confessou que se sentia como uma mulher e ela entendeu e o apoiou. Aos 23 anos se casaram. Em casa, o paciente se vestia como mulher e as relações sexuais com penetração eram esporádicas e desagradáveis para ele, acontecendo apenas para agradar sua esposa. Aos 32 anos tiveram uma filha. Desde a juventude ocupa um cargo administrativo no serviço público e manteve papel social masculino devido ao desconhecimento, rechaço social e falta de serviços assistenciais na época. Aos 48 anos, época em que o serviço de referência foi fundado, iniciou um acompanhamento inicial e posteriormente, o tratamento hormonal, assumindo progressivamente o papel social feminino. Depois de dois anos, foi submetido à vaginoplastia. Atualmente, encontra-se muito satisfeita com a resignação. Tem boa aceitação social, laboral, familiar e mantém a relação matrimonial. A esposa afirma que sua orientação sexual é por homens, que não se considera lésbica, e que mantém seu casamento por uma questão afetiva. O paciente refere que sua orientação sexual é e sempre foi por mulheres.

Apesar da orientação sexual para o sexo biológico oposto dificultar o diagnóstico diferencial do TIG, não o descarta. Além disso, esta discussão destaca a importância do diagnóstico correto do TIG, assim como a possibilidade de acesso ao tratamento na rede pública, uma vez que são poucos os serviços habilitados no Brasil .

Aqui na Psiquiatria BH temos um especialista no assunto, que é o Dr. Alexandre Pereira. Ele é o responsável pelos atendimentos de avaliação e acompanhamento de pessoas trans. Interessou-se ou conhece alguém que precisa de acompanhamento? Acesse nossa página de CONTATO e agende uma entrevista.

2017-11-28T17:46:19+00:00 4 de setembro de 2017|Tags: |0 Comments

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A Psiquiatria BH é formada por uma equipe de profissionais de saúde – psiquiatras e psicólogos – que se agruparam com o objetivo de trabalhar a saúde psíquica do indivíduo de uma maneira ampla, considerando sua subjetividade, na busca de sua autonomia.

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