Transtorno Alimentar

Transtorno Alimentar 2016-12-28T23:24:58+00:00

Transtorno Alimentar

Transtorno alimentar (TA) ou disfunção alimentar, são  termos amplos usados para designar quaisquer padrões de comportamentos alimentares que causem severo prejuízos à saúde de um indivíduo. São considerados como patologias e descritos detalhadamente pela OMS. Geralmente apresentam as suas primeiras manifestações na infância e na adolescência. O diagnóstico precoce e uma abordagem terapêutica adequada dos transtornos alimentares são fundamentais para o manejo clínico e o prognóstico destas condições.

Antigamente, um pouco de gordura no corpo era sinal de saúde. Aí veio a medicina dizendo que não há vantagem nenhuma em acumular tecido adiposo; ao contrário, que todos devemos ser magros.

Ao lado dessa recomendação médica, a pressão social do padrão de beleza que se baseia em modelos bonitas e absolutamente magras, sem um grama de gordura no corpo, tiranizou a vida de muita gente. Hoje, a quantidade de pessoas que luta para perder peso, faz dietas e toma remédios é enorme. Essa preocupação exagerada pode provocar um distúrbio psiquiátrico grave, cada vez mais frequente, que é a distorção da autoimagem. A pessoa se olha no espelho e vê uma figura obesa que não corresponde à realidade. Não nota a perda de gordura subcutânea nem os ossos proeminentes. Iludida por essa falsa imagem, imagina-se com excesso de peso e diminui obsessivamente a ingesta até que, num dado momento, não consegue mais comer. Como consequência, pode desenvolver problemas graves de saúde que chegam, às vezes, a ser fatais.

A anorexia nervosa se manifesta especialmente nas mulheres, embora sua incidência esteja aumentando também nos homens. Em torno de 90% a 95% dos casos ocorrem com mulheres. No Ambulim, serviço que mantemos no Hospital das Clínicas e que completou 10 anos em 2002, mais de 700 pessoas já foram atendidas e posso garantir que o número de homens não chega a dez. Nos Estados Unidos, parece que esse número se situa entre 10% e 15%, mas sabe-se que, nas clínicas privadas, o número de crianças e adolescentes tem crescido bastante ultimamente. Entretanto, pode-se dizer que a ideia de emagrecer, de ficar com o corpo “sarado” e a musculatura abdominal pronunciada está se tornando relevante para os homens. Bulímicos já existem vários e os ex-atletas representam uma população de risco importante. Muitos param de praticar esportes, ganham peso e começam a vomitar ou a recorrer ao uso de laxantes e moderadores de apetite para não engordar mais.

É muito antigo o registro de histórias de pessoas com bulimia e anorexia nervosas. Sabe-se que, desde a Antiguidade, algumas faziam jejum ou vomitavam várias vezes por dia para emagrecer ou manter o peso que julgavam ideal. Na Idade Média, santas e beatas da Igreja Católica tinham um padrão de conduta bastante semelhante ao das anoréxicas de hoje. Mudavam apenas os fatores desencadeantes do processo. São clássicos os casos de Santa Catarina de Sena ou de Santa Maria Madalena que faziam jejum, vomitavam e usavam ervas purgantes. Tratava-se de um jejum beatífico que tinha como propósito maior aproximação com Deus. Não resta dúvida de que essa tendência assumiu características assustadoras de 1950/1960 para cá. A pressão pela magreza absoluta aumentou o número de portadores dessas patologias. Cada vez mais gente, que não apresenta motivo algum para fazer dieta, restringe a alimentação de forma drástica. No Brasil, a situação se agrava porque, infelizmente, é fácil obter moderadores de apetite ou hormônios tiroidianos.

Na anorexia nervosa, o emagrecimento é muito acentuado. Para avaliá-lo, utiliza-se como parâmetro o IMC (índice de massa corpórea que é igual ao peso dividido pela altura ao quadrado). Na mulher, esse número deve variar entre 19 e 24 e nos homens, entre 20 e 25. Índices inferiores a 17 ou 17,5 indicam perda de peso importante. Pacientes com anorexia nervosa sempre apresentam peso abaixo do normal e recusam-se a alimentar-se adequadamente mesmo sabendo do risco que correm. Dedicam-se a atividades físicas exageradas, jejuam, vomitam, usam recursos purgativos e moderadores de apetite, porque têm uma distorção grave da autoimagem. Moça esquálida, pesando 20kg, é capaz de sentir-se obesa e dizer: “Olha como meu quadril está enorme! Eu estou um elefante, preciso continuar emagrecendo!”. No Hospital das Clínicas, às vezes, aparecem pacientes que antes de qualquer atendimento psiquiátrico são mandados para a UTI, tal a gravidade do seu estado de inanição.

Na bulimia, os sintomas são diferentes. Não é a magreza que chama a atenção. Às vezes, são mulheres de corpo escultural que cuidam dele de maneira obsessiva. Passam o dia fazendo dieta. Vão a restaurantes e pedem somente uma salada. Se houver uma batatinha palha no prato, colocam-na de lado. No entanto, de uma hora para outra abrem a geladeira ou vão a uma confeitaria e comem tudo o que veem pela frente. Apesar de a ingesta normal do indivíduo variar entre 2.000 Kcal e 2.500 Kcal diárias, elas conseguem comer num único episódio de 5.000.Kcal a 20.000.Kcal de uma vez. Depois vomitam, vomitam muito. Algumas chegam a vomitar 5,10, 15 vezes por dia para evitar o aumento de peso e provocam tantos vômitos que chegam a ferir os dedos.

As mulheres parecem mais insatisfeitas com o aspecto do seu corpo, o qiue pode acarretar em alterações da percepção corporal. Alguns estudos mostram que certas mulheres de corpo escultural, verdadeiras capas de revista, estão insatisfeitas com o próprio corpo. Essa autoimagem distorcida é comum nas mulheres, mas não costuma ser tão grave que possa causar anorexia nervosa. Se fizéssemos uma pesquisa com ambos os sexos, verificaríamos que é muito maior a porcentagem de mulheres descontentes com o corpo do que a de homens e que a queixa aumenta no período pré-menstrual, ou naqueles em que estão mais irritadas, ansiosas ou deprimidas.

As modelos, seguidas das bailarinas, são as mulheres mais afetadas. Uma pesquisa feita na Argentina demonstrou que o índice de bulimia e anorexia nervosas alcançava 50% das profissionais que dançavam no Teatro Colón de Buenos Aires. Outro grupo de risco são os jóqueis, porque 100 gramas de diferença no peso pode representar um handicap importante numa corrida. Os atletas olímpicos constituem outro grupo. Não será de estranhar se, na próxima, Olimpíada houver notícias sobre a morte de atletas que tomaram anabolizantes ou emagreceram demais. Correm risco, ainda, as estudantes de medicina, psicologia e nutrição.

Em outros casos, pesa o padrão do comportamento familiar. Às vezes, ao atender uma menina anoréxica, percebe-se a obsessão de seus pais pelo peso e imagem corporal. Além disso, o conceito atual de moda exige que as pessoas sejam excessivamente magras.

A faixa etária da prevalência da anorexia está baixando. Há meninas de 9 ou 10 anos com o problema, o que era raro acontecer no passado. Na maioria, porém, os casos de anorexia nervosa despontam na adolescência e os de bulimia, em mulheres entre 20 e 30 anos.

Não há um medicamento específico para anorexia nervosa, mas os antidepressivos são usados habitualmente, porque essas moças costumam apresentar também sintomas de depressão e muitas são tomadas por pensamentos obsessivos anteriores ou concomitantes à doença. Põem-se, por exemplo, a arrumar as roupas ou a contar compulsivamente o número de calorias dos alimentos ou, ainda, a somar os algarismos das placas dos carros que encontram na rua, sintomas esses claramente obsessivos.

Em alguns casos, verifica-se a ocorrência da automutilação ou tricotilomania, isto é, elas passam a arrancar pelos, cabelos ou sobrancelhas. Para atenuar esse tipo de comportamento, podem ser indicados alguns antidepressivos que agem com eficácia sobre a serotonina.

A bulimia é doença mais heterogênea. Às vezes, aparece um caso de manifestação recente. É a história da menina que foi a um churrasco, comeu um pouquinho mais e deu uma vomitadinha. Você lhe explica, então, os riscos da doença e que essa brincadeira inconseqüente pode transformar-se num vício difícil de superar. Casos leves resolvem-se em poucas consultas de orientação comportamental, mas há outros tão graves quanto os de anorexia nervosa que demandam tratamento mais longo. No geral, porém, pacientes com anorexia nervosa são muito mais difíceis de tratar.